A Homossexualidade é uma opção de todos

outubro 1, 2007 at 8:10 pm (Violência contra Homossexuais)

Jacinto Ferreira Dias, conhecido por Jacinta, foi morto com dois tiros – um no pescoço e outro no ombro esquerdo, em sua casa no centro de Arcoverde. Segundo o delegado Antonio Cândido de Oliveira, o crime foi premeditado por Edvaldo de Melo, que se queixava de estar sendo assediado por Jacinta.

A história de Jacinto se repete quotidianamente sem que ninguém se manifeste sobre a violência contra homossexuais. A vulnerabilidade social que vivem os mesmos, tendo em vista o preconceito arraigado na cultura machista e coronelista é tão grande que quando se fala em violência, poucos têm a coragem de expressar com indignação sobre os assassinatos cruéis de um grupo tão exposto à violência.

Segundo o banco de dados do MNDH- Movimento Nacional de Direitos Humanos/Gajop, com base em matérias de jornais, até o dia 12.07.99, neste ano foram assassinados 13 homossexuais de forma violenta em Pernambuco. Se compararmos a evolução dos assassinatos contra homossexuais no Estado, com base na pesquisa realizada pelo mesmo banco, no período de janeiro a dezembro de 1998, em que foram vítimas 13 pessoas, conclui-se que houve o mesmo número de assassinatos em um período de seis meses e doze dias.

Segundo pesquisa realizada pelo Grupo Gay da Bahia (GGB), em 19 estados da federação, também com base em matérias de jornais, em 1998 foram assassinados 116 homossexuais, sendo que Pernambuco, Bahia e Rio ocuparam o segundo lugar, com 14 assassinatos em cada estado.

Segundo esta pesquisa, São Paulo liderou no primeiro lugar, com 19 casos. A predominância foi a arma de fogo em 44% e arma branca com 28%. Estes dados vêm confirmar, mais uma vez, que a população anda armada e que a impunidade é um dos grandes fatores da violência.

No caso específico dos assassinatos de homossexuais em Pernambuco, de 1º de janeiro a 12 de julho de 99, dos 13 casos noticiados, 84,6% (11 casos) foram do sexo masculino e 15,4% (2) do sexo feminino, sendo que 46,1% (6) dos crimes ocorreram em residência e 38,5% (5) em via pública. A idade da vítima variou entre 22-35 anos, representando 69,2% (9) dos casos. Vale destacar a utilização da arma de fogo, representando 92,3% (12) dos assassinatos.

Por fim, vale refletir e repensar que cidadania queremos construir, pois não há cidadania plena quando se tem uma cultura que reforça o estereótipo da discriminação, fato este que abre um enorme espaço para a vulnerabilidade de grupos sociais bem particulares, como no caso dos homossexuais.

FONTE: http://www.gajop.org.br/opiniao9910.htm

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Violência contra homossexuais: é crime

outubro 1, 2007 at 8:09 pm (Violência contra Homossexuais)


Fábio me procurou se dizendo muito ‘deprimido’ e relatava sofrer de perda de memória. Havia procurado um médico pois havia sofrido uma ‘lesão’ na cabeça e acreditava que sua ‘amnésia’ possuía causas orgânicas.
Entretanto após uma série de exames o médico lhe disse que esta hipótese estava descartada e sugeriu que procurasse uma avaliação psicológica. Na primeira entrevista Fábio insistia na teoria organicista.

Perguntei a ele desde quando ele passou a apresentar tais sintomas. Fábio afirmou visivelmente angustiado que tudo começara logo após o ‘assalto’. Decidi investigar as circunstâncias do ‘assalto’ e ele relutou afirmando que não gostava de falar no assunto. “Fábio, sei que é difícil falar de coisas que preferimos esquecer mas falar deste assunto pode ser libertador para você…”

“Você acredita que há uma relação entre minha amnésia e o que me aconteceu naquele dia?” “Não posso afirmar pois não sei exatamente o que lhe aconteceu, mas há relatos na literatura clínica sobre pessoas que se forçaram a esquecer cenas traumáticas de sua vida e passaram a apresentar lapsos de memória no futuro. Seria mais ou menos como se nossa cabeça fosse um computador que ‘deletasse’ outros ‘dados semelhantes’ por engano.”

Fábio começou a chorar e disse que nunca havia contado a verdade para ninguém nem mesmo para seu médico. Com muita dificuldade ele passou ao relato da verdadeira história. Fábio saía de uma boate gay e estava a caminho de seu carro quando foi abordado por um rapaz bonito, loiro, bem vestido, de aparelhos nos dentes. A conversa parecia uma cantada. Fábio se deixou seduzir pela conversa e quando estava bem distraído foi abordado por outro rapaz e forçado abrir seu carro. Ficava claro que eram garotos de classe média pois levaram só CDs e uma mochila com algumas roupas de grife e no final o agrediram.

Já caído Fábio levou diversos chutes na cabeça enquanto os agressores diziam: “Você merece morrer sua bicha! Isso é para você aprender e virar homem!” Fábio saiu de lá muito machucado e foi ao pronto socorro. Em casa inventou uma história mirabolante. Esta história foi repetida para os amigos já com requinte de detalhes, era quase como se ele acreditasse nessa nova versão.

Perguntei porque ele não contara a verdade. Fábio não podia falar para família o que realmente havia lhe acontecido pois isso implicaria em ter de falar de sua vida sexual. Isto era até certo ponto compreensível, mas e os amigos? Fábio confessou que no fundo ele se sentia culpado por tudo que lhe havia lhe acontecido.

Na realidade aquela surra lhe parecia um castigo merecido por freqüentar tais lugares. Com o tempo foi ficando claro para Fábio que ele tinha muita culpa em relação ao seus desejos sexuais e que o discurso dos seus agressores encontrou endereço certo no seu psiquismo: “Bicha merece apanhar! Quem mandou dar conversa para o bonitinho! Viu no que dá essa pouca vergonha!”

Infelizmente Fábio não foi meu único paciente com história semelhante. Outro paciente simplesmente andava no calçadão de Copacabana e só sentiu uma paulada na cabeça. Seus amigos correram e ele foi socorrido por estranhos. Mas porque essas pessoas não dão queixa a polícia ou contam para os seus amigos o acontecido?

Fábio tinha a resposta: “Eu mesmo quando ouvia histórias semelhantes sempre culpava as pessoas afirmando que elas deveriam estar ‘dando pinta’, ou que estavam em lugares perigosos.”

O outro paciente por ter sido agredido em público teve sua história conhecida pelos seus amigos, e ele me contava surpreso: “Quando meus amigos vinham comentar comigo o ocorrido, mais cedo ou mais tarde surgia a famosa pergunta: Pode confessar a verdade… O que você estava aprontando?”

Na realidade a vítima de ataques homofóbicos é sempre tida como “culpada”, é como se de alguma forma a pessoa fosse responsabilizada pela agressão que sofreu. E se não há indícios de agressão justificada no relato da vítima, isto seria sinal que ela estaria escondendo o que certamente teria “aprontado”.

Existem estudos na área de Psicologia Social que explicam o fenômeno. Há pesquisas que visam investigar como as pessoas atribuem causalidade aos acontecimentos sociais. Estas pesquisas são feitas sob a forma de questionários com histórias de um estupro, por exemplo.

Cada grupo de questionários possui pequenas variações como roupa que a vítima usava, local do crime, idade da vítima, cor da pele do estuprador e da vítima, estado civil da vítima. O que se concluiu com este tipo de pesquisa é que estes dados podem tornar a vítima mais ou menos culpada pelo crime que sofreu.

Então, por exemplo, se o estuprador é negro em geral a vítima é inocente, mas se a mulher é solteira e estava de mini saia e o estuprador branco, a vítima de estupro passa a ser considerada responsável pelo delito. Diferenças são encontradas também cruzando os dados dos sujeitos da pesquisa, assim uma mulher tende a inocentar mais outra mulher, como religiosos de direita tendem a responsabilizar mais as vítimas, etc.

A conclusão mais geral é que as pessoas analisam narrativas criminais a partir de suas próprias crenças e preconceitos. O raciocínio dos pacientes que me refiro é mais ou menos assim: “Para ouvir que em última análise sou uma bicha sem vergonha e pintosa que só levou uma surra merecida, é preferível ficar calado.”

As pessoas necessitam compartilhar seus sofrimentos e serem acolhidas na sua dor, ao contrário seu sentimento de culpa exige não só que mascarem sua dor mas que gastem enormes quantidades de energia psíquica inventando relatos que visam escamotear a verdade e supostamente livrá-los de uma segunda agressão.

Não mais a agressão física mas agora a violência de ver seu sofrimento injustificado transformado em castigo merecido. Assim a sombra da opressão, da culpa e da vergonha do que se é, as pessoas vão silenciando seus protestos e cada vez mais os opressores vão se sentindo mais e mais autorizados a violentar aqueles que ousam não se submeter aos seus ideais tirânicos.

FONTE: http://mixbrasil.uol.com.br/id/psi/violencia.htm

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